15.1.13

Grandes expectativas

#1

Eu entro no carro e o amigo, com as mãos no volante, diz:

“Eu não vou mentir, as expectativas sobre o próximo texto são muito grandes. Todos esperam que você fale algo sobre o término”.

“Eu não sou tão previsível”, respondo.

“É que seria natural…”.

“Eu queria escrever um texto sobre verdades duras e mentiras reconfortantes. Seria algo no estilo “’Te Pego Lá Fora’”.

“Esse filme é demais. Mas sabe o que você deveria fazer? Você devia colocar um título que todos fossem pensar se tratar de algo meloso, mas o texto seria sobre futebol ou sobre a FIFA”.

“Qualquer coisa que eu escreva, vão entender mal”.

Então começo a recordar que o único texto que escrevi sobre futebol foi sobre um juiz assassinado no espaço de tempo de uma moeda que gira no ar, sem revelar nada: se é cara ou se é coroa.

#2

Eu almoço sozinho. E almoço rápido. Se em algum dia de sua vida (que me dá saudades) minha avó pretendeu que eu almoçasse bem e tirasse proveito disso, e ficasse feliz, e saboreasse cada alimento, e comesse muito, sempre com alguém para repor colheradas e colheradas no meu prato, bem, a vida e seus ritmos se encarregaram de que isso não acontecesse.

Eu almoço rápido, mas eu tive tempo de ver o casal que se aproximava. Ele, alto, cabelo branco, boca mole e voz pastosa, um terno folgado a cobrir seu corpo asqueroso. Ela, magra, alta, de cabelos cacheados. Bonita o suficiente para me chamar a atenção.

Casal? Pai e filha? Patrão e empregada? O que eles são?

Enquanto engulo meu risoto de legumes ele fala algo com sua boca de molusco e ela se enclina sobre o prato, virando a cabeça de lado e brincando com um de seus cachinhos entre o indicador e o polegar. Ela é linda. Uma conhecida passa por eles, ele sorri para ela e a chama de “garota”. Ele é nojento.

Ela repara em mim e fica sem graça. Nos seus olhos, a vergonha de fazer um papel que não lhe pertence. De ser um fetiche sem alma. De não estar no meu mundo, mas no mundo de um velho. A que preço? É o que quero saber.

Meu almoço perde e o sabor. No lugar, o azedo do ódio toma lugar. Ódio por todas as mulheres e seus planos e suas tramas e suas maquinações. Ódio pela incapacidade delas de viver algo em plenitude, mas tão somente calculando dez passos à frente, dez passos de vantagem, onde quem que estejam. Ódio de sua inabilidade em ser feliz, senão sugando a felicidade de outro ou de outros.

Um ódio que não desce nem com Coca-Cola.

Esse ódio dura só um segundo. E então ela volta a sorrir. Não sei para quem.

#3

Alguém declara que somente o homem forte é um homem. Eu contrario. Eu sempre acreditei que o fraco pisa no forte, mas tudo que vejo é o inverso, o fraco sendo esmagado. É um pensamento estranho, mas o pensamento é meu.

Ação. Todos ligam tanto para a ação. O homem tem que agir. Fazer algo. Ganhar algo. Transformar algo. Criar algo. Aceito que o homem é aquilo que faz e não aquilo que é ou o que traz seu nome ou seu passado. Pensam que perdi o debate, que aceitei o argumento final: homem é aquele que coça o saco e acena a mão para o mundo todo. É o que o contendor acredita.

Não, não, não. O fraco se transforma. O forte é opressor. O forte só existe para dar sentido à vida do fraco. O fraco se supera. O fraco supera o forte. E o fraco se torna o forte. Então, o homem fraco também é um homem.

Palavras. A discussão não tem fim. No que é melhor acreditar: que só é homem aquele que traz a caça para dentro de casa ou aquele que nunca foi nada, não é nada e não será nada, exceto quando todos menos esperarem e a adversidade exigir?

Os homens fracos e os fortes discutem, mas onde quer que se olhe, eles só pisam uns nos outros.

2 comentários:

Ana disse...

Curti. Quebre as expectativas.

Karen. disse...

Saudades de ler seus textos, Victão. Sempre muito bons. E saudades de você também, faz tempo não conversamos. Espero que esteja tudo bem por aí.
Beijo!