24.2.13

Gatos

Um homem feliz é um homem que se dá conta de todos os processos de sua vida. Ele sabe porque o sol nasce, o despertador toca, o porquê do barulho do motor do barbeador. Ele entende quando o ônibus sacoleja e o motivo dos olhares se cruzarem. Ele entende a fúria do chefe, a indiferença dos “um qualquer aí” e a medida exata entre a água gelada e a natural dentro do copinho de plástico. Ele compreende o cansaço e o suor e conhece a pontinha de esperança que o invade toda vez que a lua cerra o tempo pretérito. E ele faz tudo isso sorrindo. Eis o homem feliz.

E não obstante esse homem feliz se encontre com seus vizinhos e exclame bom-dia-boa-tarde-boa-noite com a expressividade de uma criança de quatro anos, por mais que ele supere os gracejos inconvenientes e as tristezas que martelam covardemente seu ímpeto, ainda assim, mais hora menos hora, ele cede.

Mas antes de ceder, ele só não entende uma coisa: por que tantos gatos mortos?

É coisa que ele reparou por acaso. Em uma calçada florida por uma primavera atrasada, jazia um gato rajado, o crânio amassado e a massa encefálica colorindo o granito disfarçada de pétalas. Estava deitado como se fosse um desses gatos egípcios régios, do tempo do Faraó. Registrado simplesmente como mais uma obra de arte urbana, mais uma peça perdida desse quebra-cabeça complexo de bilhões de peças.

Depois, ainda, outra ocorrência: um gato esmagado pelo peso de mil rodas, esfacelado pela impressão digital de empresas como Bridgestone ou Pirelli, tão explícito como os calendários de modelos seminuas financiados por estas corporações, alegria de mecânicos de todas as partes. A mecânica, contudo, não favorecendo o ser felino, acabou por provar-lhe, por todos os meios científicos e classicamente físicos, que o peso é peso, que o impacto é impacto, que a velocidade é velocidade e que dois corpos não ocupam o mesmo espaço. E foi-se o gato.

A estes se juntaram outros tantos bichanos: o gato pendurado por uma pata na única árvore da rua de pedra. O gato cortado em dois. A gata empalada. O filhote afogado. A gata enforcada. O siamês escalpelado. O himalaio prensado em máquinas. O maine que levou uma flechada. Até mesmo uma pantera entrou no jogo. Morta por uma espadada. Digna em seu luto.

Na cidade, os casos eram tantos, e tão inexplicáveis, que num nível de subconsciência mal justificado e de comprovação duvidosa, o impacto da onda de assassinatos de gatinhos corroeu a certeza do homem. Não é bem a certeza sobre algo, mas a certeza em si. Um homem, antes de feliz, tem de ser certo. E por ser certo, não pretendo que ele não seja errado. Se é que me entendem. Ele deve ter, por atributo, a certeza. E eu digo, sem pudor algum, que sem a certeza, o homem nada é e nem poderia ter sido. Neanderthais padeceriam. Cro-magnons não atiçariam a curiosidade dos outros. E nós, sapiens sapiens sapiens sapiens, não reproduziríamos nem metade desta sapiência toda. A incerteza é, via de regra, a causa mortis preferida da natureza. Pergunte aos gatos.

Atente-se para esta dissociação do protagonista. Ele sorri, ele trabalha, ele toma seu iogurte grego, joga bola e dá tapinhas nas costas dos queridos. Ele namora, noiva e até pensa em casar. Mas nalgum canto obscuro do seu cérebro, incomunicável (há não ser pela ponte que a própria incomunicabilidade cria), está o fato brutal e sacralizado de que algo ou alguém está matando gatos em um beco escuro da cidade.

De sorte que se na superfície um sorriso é estampado, nas profundezas deste homem jaz uma gélida incerteza.

Nestas horas, a cidade passou a se tornar paranoica. A venda de gatos diminuiu drasticamente, para uma cotação de apenas 1,4 gatos para cada grupo de 100.000 habitantes. O preço do gato subiu às alturas, impulsionado por um processo inflacionário escorchante, calcado no risco-gato, já embutido o preço do seguro-gato, dos mecanismos de segurança anti-matança de felinos, bem como na cobertura pela tanatopraxia e pelo enterro dos bichanos. Taxidermia sempre sendo cobrada à parte. O mercado de gatos sofria. Whiskas se tornou uma destas marcas anacrônicas, rememoradas como se fosse parte de um passado mítico.

O assunto “gato” foi se tornando algo secundado, proibido por normas de conveniência, originadas de algum gabinete oculto (ou ocultista), muito semelhante ao que se faz com organizações criminosas poderosas. Se ninguém falasse de gatos, ninguém pensaria em gatos. Se ninguém visse gatos e suas vísceras, ninguém suspeitaria das bestialidades.

Nos bastidores, um exército de ratos fora contratado a infestar a cidade, corrompendo a fábula por via inversa. Não se tratava mais o problema dos ratos com mais gatos, mas o problema dos poucos gatos com mais ratos. A lógica advinha de alguma mente brilhante, geniosa, formada pela USP e com doutorado na Europa, que calculara que para cada rato existente, de alguma forma providencial deveriam se fazer surgir tantos outros gatos, a fim de caçá-los.

E assim a cidade, cheia de ratos e cheia de incertezas, viu-se alarmada, silenciosamente, pela queda simétrica e sequencial desse jogo de dominó, iniciada pela matança singela e elaborada de gatinhos.

O homem, incerto, dificilmente continuava a compreender os processos de sua vida. Onde antes havia um sorriso e uma medida exata de água gelada e natural num copo de plástico, agora havia um rato. A ciência era humilhada pela cidade, pois se antes para cada evento existia um gato morto e um gato vivo, agora só existiam gatos mortos e milhões de ratos vivos.

Nesse ambiente nada salutar, o homem, incerto, por fim se tornou infeliz, destacado de seus processos cotidianos, imerso em caos. Aos seus questionamentos, correspondiam nada menos que resposta alguma.

Incerto, infeliz e ignorante de seus processos, ele se recordou de uma coisa boba, que aprendera na faculdade: lembrou que na bandeira de seu país, onde estava escrito “ordem e progresso”, muito perniciosamente fora omitada a palavra “amor”. Homens mais espertos, mais inteligentes, mais felizes, certos e cientes, deliberadamente, criando algo imenso e bonito, com uma pitada de semideuses, alijaram o amor da nossa pátria.

E na cidade isso grassou, pensou o homenzinho. Uma cidade onde outrora ordem e progresso evoluíam e lhe tornavam alguém, sem o comando do amor se tornou ratos famintos e gatos mortos.

Estava sozinho, caminhando laboriosamente por uma rua abandonada, de luz de poste queimada, quando, passando ao lado de um beco, ouviu algo. Era um som fino, uma linha tênue entre um rumor e o silêncio. O suficiente para lhe chamar a atenção. Esse som se repetiu, perdido no escuro e entre as latas de lixo do beco. Miau, miau e miau, dizia, pedindo socorro. Um resquício de amor num mundo louco, incerto e infeliz. Acudiu ao chamado. Procurou entre as latas, entre o lixo, entre os mendigos. Procurou até que encontrou. Acima de si, trepado num muro pouco mais alto que toda sua altura, um gato negro, não mais que um filhote, faminto e assustado, clamando por salvação, os olhos azuis estampados no homenzinho.

Agarrou-o, sabendo que aquilo sim era um sinal de esperança. Podia ouvir os ratos amontoados entre as paredes, ouvindo, correndo, em sinal de disputa política. Ratos mais fracos exclamando que deveriam ir embora, que o primado do gato voltaria. Ratos mais fortes querendo estabelecer uma nova ordem, uma ordem de ratos sobre gatos. A noite silenciosa agora inteira de miados esquecidos e chiados de ratos em polvorosa.

Com o gatinho em suas mãos, o homem, muito certo e meio feliz, foi tomando corpo de algo que estava entranhado em si. Ele sabia o que era aquilo. Ele sabia que sensação era aquela, de ter leves garras arranhando suas mãos, os pelos sedosos garantindo um afeto louco, a ânsia de agarrar, apertar, chacoalhar. A ânsia de matar.

Ele conhecia aquele processo. E ele o faria de novo e de novo, sempre com um sorriso no rosto.