15.6.13

Strogonoff

“As risadas vão surgindo do pequeno grupo, um amontado de couro e tecido verde que se prosta perante uma chama fraca em meio à vastidão branca, de gelo, e negra, de terra revirada e revolta, da trincheira que chamavam de lar. Era uma distração de boa índole, porque o Oficial, que por sorte era destacado à cozinha, viera a ali se perder e a se isolar com o pequeno grupo da cavalaria, bloqueados pelo avanço dos poloneses e pela densa tempestade que os atingira duas semanas atrás. Os cavalos foram minguando, seja pela fraqueza, pelo frio, ou, o que mais irritava o Oficial, pela sua lâmina, que agora se dispunha a pelar o animal, atrás de sua carne negra e gelada. Era gostoso ouvir o som entrecortado dos risos curtos, mas longos o suficiente para quebrantar o frio”.

Eu cortava a cebola, as mãos salpicadas de pedacinhos do fruto e os olhos de lágrimas, quando ele me abraçou por trás, beijando minha nuca e apertando meu seio esquerdo. Um tremor de repulsa percorre minha espinha e ele confunde isso com um prazer incontido, me dando um tapa na bunda.

- Estou cozinhando, protesto.

Ele me pega o queixo e analisa meus olhos.

- Por favor, não chore. Sei que sentiu minha falta, mas aqui estou.

- Bobo.

Deixando a cebola de lado, esparramo os bifes de alcatra sobre a tábua. A faca dezliza pela fibra sem resistência, separando gordura de músculo. Ele me vê executando a tarefa e começa um papo sobre um programa de TV.

- … precisa ver o que ele faz com os cachorros, é inacreditável!

- Eu imagino.

Ele apanha uma cerveja da geladeira, não sem antes apalpar minha bunda novamente, e ressalta que fico muito gostosa de calça de lycra. Põe-se ao meu lado enquanto eu fatio a carne vermelha em tiras.

- O que você tem hoje? Parecia fria.

Olho para ele com pena. Com a faca na mão, beijo-o no canto da boca. Não, não sou mais capaz de sentir paixão por este homem. Ele não me traiu, não me fez mal, não me bateu. Ele me escreve uma música pelo menos uma vez por ano e me elogia e me dá flores. Seu sorriso é bonito. Mas …

- Estou com cólica.

- Ok, estressadinha. E me aperta a bochecha.

Depois que a margarina derrete, jogo a cebola na panela. O delicioso cheiro invade a cozinha enquanto ela doura. Já translúcida, é a vez de acrescentar as tiras de carne. Sambo a colher de pau, fritando-as. O barulho da carne crepitando é o sinal de que preciso.

- Tenho uma surpresa para você, querida, ele me diz, empolgado.

- O quê.

Ele me mostra uma fotografia de uma praia e diz que é o nosso próximo destino. Sorrio e viro a cara.

- Espera, amor, senão perco o ponto.

Despejo conhaque sobre a carne, o cheiro de álcool invadindo as narinas. Ele ainda me encarando, como um cachorro aguardando aprovação. Seguro um fósforo. Acendo-o e o jogo à panela. As chamas sobem altas, mais atrativas que todo o resto do mundo.

“Conhaque aquece o mundo e faz esquecer que a guerra nos espreita, dizia algum comdiv a eles, e entre um gole e outro, o Oficial olhou a garrafa e o creme azedo que tinha à sua frente, e por uma decisão impensada derramou o líquido sobre a caçarola, onde fervia a carne do trotador orloff, cortada em tiras para render mais. O cheiro animou seus companheiros. Rodion deu-lhe tapinhas nas costas pelo prato que prometia um banquete em meio ao inferno. Qualquer alegria era a maior das alegrias. Qualquer esperança era a porta do Céu”.

Sentados à mesa, ele me explica que o vento e o mar vão nos fazer bem, que sente saudade em me ver de bikini, e que mal pode esperar pelas caipirinhas. Eu gosto dele? Insisto? Ele teima em sorrir, mostrando os dentes, e talvez eu me arrependa de seguir adiante o plano. Quando prova o prato, fecha os olhos e se finge de dramático, elogiando até a terceira geração da minha família, congratulando-os pela genialidade em ter me gerado. Um prato tão simples esse…

Ele me assistindo encarar a panela, pergunta o que foi.

- E se estivesse envenenado?, questiono.

Ele ri.

- Hein.

- Para de brincar assim… não é legal.

Fico séria.

Ele larga o garfo e coça a garganta.

- Você …?

Explodo em risadas e ele me segue, voltando a comer. Mas eu não acho graça. Meus músculos da face estão tensos, minha boca se escancara, há um som repetido saindo das minhas cordas vocais, mas não há graça alguma.

“… o lobo encosta o focinho na tigela congelada e fareja a novidade. Funga de desgosto. Uma pata sua verifica a consistência da carne congelada. Mas para chegar até ela… tantas indumentárias, tanto couro e metal! O banquete nada tem de digno de uma fera. Uiva para o nada, para o branco da neve”.

- Felipe.

- Oi, querida?

- Eu quero a separação.