17.8.13

Tu és Deus

Leio com a surpresa de um leitor de ficção científica a notícia dos cem mil inscritos como voluntários para colonizar Marte. Uma viagem sem volta. São muitos os que querem se livrar da Terra, deixando tudo para trás a fim de entrar de vez para a História interplanetária.

A notícia me faz lembrar de outra equipe selecionada para visitar Marte. A nave Envoy partiu do planetinha azul direto ao vermelho carregando quatro casais, todos especialistas em algo. Depois de interrompida a comunicação com a base terrestre, outra nave foi enviada para averiguar o que ocorrera. A nova tripulação não encontrou nenhum sobrevivente da Envoy, exceto um rapaz: filho de um dos casais, Valentine Michael Smith. Estou a falar de "Um estranho numa terra estranha”, de Robert Heinlein.

Smith foi trazido à Terra como um tesouro, um objeto a ser dissecado pelo cientistas terráqueos. Criado por marcianos, estava deslocado de toda a lógica e de todas as idiossincrasias humanas. Por isso mesmo, com sua percepção ingênua, acaba por desvelar toda a fragilidade de nossas convenções, aprendendo-as do zero e descartando-as por sua completa ausência de sentido.

O marciano vive sua trajetória um tanto quanto “siddarthiana”, construindo seu próprio entendimento das relações humanas, do sexo, da confiança, da amizade, do sacrifício, do amor, da doação, do afeto. As páginas correm enquanto ele tenta “grokkar” os homens e as mulheres. Marcante o momento em que se escandaliza com um ser humano que o convida a pisar a grama (um ser vivo), até que se dá conta de que a grama está ok com isso.

O momento chave do livro é a criação, por Valentine, da Igreja de Todos os Mundos, cujos dogmas são tão simples quanto o deveriam ser os dogmas de outras igrejas que por aí se proliferam. Sua mensagem é simples: a alteridade é o meio da humanidade se salvar. A empatia, o segredo de nossa coexistência. O “amor ao próximo” levado às últimas consequências.

A parábola não escapa do roteiro tradicional de nossa humanidade: Smith é linchado por uma turba enfurecida, que lhe clama a carne e o sangue enquanto ele resume seu olhar a um gafanhoto. Ao se entreolharem, o marciano proclama, sábio: “Tu és Deus”.

Os terráqueos que querem se ver livres deste nosso planeta, que ainda julgo belo, talvez necessitem construir um novo mundo, longe daqui, oculto de nossas convicções espirituosas. Um mundo de religiosos-políticos, cheio de indiferença, preconceito e segregação. Onde o amor ao próximo esbarra na barreira intransponível da diferença, da distinção, da contrariedade. Religiões totalitárias, incapazes de aceitar o outro. Não estamos a nos expandir, a nos desenvolver. Estamos insistindo em nos dobrar, fetalmente, desejosos de voltar a um útero podre.

Esses seres que daqui querem escapar, eles estão cobertos de razão. Que o planeta vermelho os receba de braços abertos, com toda a sua beleza árida.

Eu continuo no planeta azul, um tanto quanto espantado, olhando para todos e exclamando: “Tu és Deus”.

3 comentários:

Karen disse...

Vou procurar esse livro.

Zanini disse...

Grande!!!! Grande comentário, Barbosa!! Como é difícil alguém que enxerga nas palavras além do que a vista alcança!!!! E você foi mais longe descrevendo o que está no cerne da nossa sociedade cega!!!

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Bravo!