13.10.13

Eu gosto mesmo é de pobre

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Algumas classes sociais separam Caco Antibes, aquele do “Sai de Baixo”, do Ruço, de “Pé na Cova”, ambos programas televisivos de humor. De comum, no entanto, está o mesmo homem na pele dos dois, Miguel Falabella.

Que não cogitem aqui que vou me alongar em discussões sociológicas a respeito da sociedade carioca, mesmo porque dela nada sei, dada a sua complexidade, mas o espaço é suficiente para uma constatação básica: eu gosto mesmo é de pobre.

É, isso mesmo, pobre, pé-rapado, zé-ruela, necessitado, carente. Aquele terço da nossa população que habita em sua maioria a periferia das manchas disformes que convencionamos chamar de cidades e cuja mente e modos são também habitados pela periferia.

A origem dessa predileção surgiu sabe-se lá aonde. Não posso dizer aqui que já fui hostilizado pelas classes mais abastadas ou me traumatizei com os nobres. Nada disso, eles me recebem de braços abertos, posso assegurar, mas alguns olhares de desconfiança, cônscios da minha verve média.

Mas não queiram que eu dobre os joelhos para os ricaços. Sobrenome para mim é aquilo que você herda de seus pais e tanto pior para os poderosos se o que carregam traz em si mais do que letras.

Atentem, o texto é sobre a habilidade do carioca Falabella em lidar com os pobres. Versátil, já figurou como um malandro metido a socialite, cuja ojeriza aos de baixo era sua maior fonte de humor. Antes de estigmatizar os subalternos, como querem fazer crer os que o citam, Caco Antibes era um personagem de fina crítica à classe média brasileira. Seu “horror a pobre” era uma caricatura tão decadente de nossa sociedade que esta, sem entender coisa alguma, ria aos montes, não se dando conta de que a piada era ela mesma.

Já com o Ruço o buraco é mais embaixo. Sua ousadia não seria de todo perdoável pelos ricos. Afinal, com “Pé na Cova”, Falabella humaniza os pobres, mostrando que, a despeito de sua falta de modos e do conhecimento acadêmico, buscam os mesmos objetivos de todo e qualquer outro ser humano, independentemente de sua faixa econômica: viver antes de morrer. E viver, creio eu, não depende dos penduricalhos da civilização que tentamos erigir.

Ruço é o “homem médio” a quem tentamos sempre imaginar no ideário popular. Dono de uma funerária (“F.U.I.”, Funerária Unidos do Irajá), sua casa parece um circo de horrores, não pela proximidade com o funesto, mas pela vida que esbanja de seus membros: uma ex-mulher alcoólatra e tanatopraxista (Marília Pêra, sensacional com seus 70 anos), a esposa atual, jovem e voluptuosa, uma filha stripper e lésbica e um filho político e pedante, além da fauna que reside na vizinhança, como a Luz Divina, as irmãs gêmeas de pais diferentes (uma negra, outra branca), o Tamanco (Mart´nália, como “marido” de Odete Roitman, a stripper) e os vizinhos reacionários, obviamente fazendo o papel dos evangélicos mais raivosos de que temos tido notícias ultimamente.

Muito mais que humor, “Pé na Cova” oferece uma visão que vai de encontro com tudo o que a Globo sempre construiu em termos de cultura. Se da manhã até às 22h30 sua programação é voltada para a conformação da personalidade dos brasileiros, de maneira que aceitem a imposição do status quo, como, por exemplo, o papel da mulher tranquila, brincalhona e burra que as donas de casa devem ter pela manhã, passando pela juventude apolitizada e egoísta de “Malhação”, ao sujeito classe média obediente ao grande capital, de todas as novelas do canal, das 18, 19 e 21 horas, sem exceção, é certo que com a exibição de “Pé na Cova” isso se inverte, ainda que de maneira muito dissimulada e tímida, pois é ali que os estereótipos ganham um novo padrão (seria de se esperar muito que o perfil do verdadeiro brasileiro fosse mostrado), permitindo uma demonstração da pulsão de vida e morte a que as classes menos assistidas estão mais habituadas.

Dessa forma, não é sem assombro que a faxineira da trama revela aos patrões que toda sua vizinhança foi exterminada por traficantes na favela em que mora, enquanto ela dava graças-a-deus por ter sobrevivido. As formas esculturais da filha stripper (Luma Costa) se exibem igualmente, sem pudor, provocando os crentes que não suportam a ideia de saber que ela cria uma criança adotada junto de outra mulher. No seriado já fizeram a defesa da PEC das domésticas e do bolsa-família, bem como se expôs ao ridículo parlamentares risíveis como Marco Feliciano, o que não deve agradar sobremaneira Ali Kamel e sua obstinação política.

Com isso, cria-se uma glamurização da pobreza, coisa que “A Grande Família” fazia sem muito empenho. Ruço e sua ex-mulher dançam na sala apertada, ao som de A Whiter Shade of Pale. Ruço, corajoso, beija na boca seu ex-melhor amigo (morto) enquanto este jaz em seu caixão. O ambiente é aconchegante, as amizades imperam na vizinhança, revelando uma matriz de solidariedade no discurso oculto do texto, em contraponto ao ódio exacerbado das reviravoltas novelescas e os amores insossos e irreais dos casais globais, exibidos pouco antes na faixa de horários do canal.

Poderia ficar horas tecendo loas a “Pé na Cova” e a programas similares, como o inglês “Shameless”, que vai ainda mais fundo na representação do lado oculto da sociedade, da imensa sombra que cerca o ponto ínfimo da iluminada riqueza. Cumpre antes, porém, destacar meu papel tão solene nessa predileção, destacando que este aqui, como não poderia deixar de ser, é corinthiano maloqueiro, socialista de botequim, agnóstico por preguiça e admirador de todos os que lutam diariamente para se manter de pé neste planeta.

E é por isso que compreendo a ideia de Falabella com seus trejeitos mesquinhos de Caco Antibes e a brutalidade gentil do Ruço. Há um quê de sujeito perdido num espaço de distorções na obra do carioca, alguém criado em meio a relativo conforto e desacostumado com a pompa dos ambientes “bem-frequentados”. Não muito diferentemente, acho que posso afirmar com carinho que me sinto melhor acolhido no buteco da esquina que no evento dos juízes ou no espaço de comércio das grandes grifes.

É um bicho isso, um desassosego com a diferença e um assombro com a indiferença. Um olhar trêmulo que não se acostumou a vislumbrar a sombra pálida no fundo luxuoso da caverna, mas almeja descer fundo nos grotões, em busca de esperança.

E a esperança, já dizia Winston em 1984, só pode estar nos proles.