7.5.14

Marcos Peres, Borges e o Projudi

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A primeira vez que li sobre Marcos Peres foi na seção de notícias do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná. A notícia não era sobre os feitos dos desembargadores, as estatísticas de produtividade dos juízes ou qualquer outro assunto de pauta jurídica, mas sobre o vitorioso do Prêmio SESC de Literatura no ano de 2013.

Então veio a primeira surpresa: o escritor era um técnico judiciário. Sim, aquele cara que faz seu processo ir de um lado para o outro no sistema, das mãos do advogado para as do juiz, o famoso “bate-carimbo”.

Ainda que eu estivesse me deparando, talvez, com um desses exemplares raros de burocratas escritores, mais proeminentes no nosso passado (um Lima Barreto, Graciliano Ramos etc), tal fato, na minha cabeça, só poderia se dar na capital do Estado, Curitiba, cidade que, a despeito de concentrar o maior número de pessoas mal humoradas por metro quadrado no país, teria tamanho e dinâmica suficientes para fazer grassar tamanha excentricidade (brinco com a surpresa porque é de praxe o funcionalismo público ser visitado pelo tipo menos artístico possível).

Mas me permitiram tampouco esse preconceito. O cara é de Maringá.

A inveja bateu forte, isso eu garanto.

Sendo razoável, todavia, contive-me e passei a procurar conhecer Marcos Peres. Um sujeito na casa dos 20, funcionário público, residente em Maringá (se você nunca ouvir numa das mais belas cidades planejadas do país, bem, então vá pesquisar sobre), ganhador do prêmio com o livro “O evangelho segundo Hitler”. Um título bombástico, que não deixa ninguém indiferente. É um livro nazista? Tem a ver com o Saramago? O cara é doente e detesta o cristianismo? Não. É um livraço, claro, cheio das suas limitações de estilo, mas que mescla na mesma estória Hitler, Jorge Luis Borges e heresias gnósticas dos primeiros séculos do Cristianismo, com seu suspense de timing perfeito e criatividade ilimitada. Enfim, estapafúrdio (e recomendado).

Estapafúrdio, aliás, foi o adjetivo empregado por André Sant´Anna, outro escritor, jurado do Prêmio SESC e um dos admiradores de Marcos, ao escrever a orelha do livro.

Estive a ver ambos em debate promovido pelo projeto “Autores e Ideias” do SESC Paraná.

André Sant´Anna é pessoa experimentadíssima, com a desenvoltura daqueles para quem a arte não assusta. Domou o debate com seus trejeitos malucos e fez um panorama um tanto quanto triste do nosso tempo, seja pela via política, social, econômica ou artística. Talvez um desencantado.

Já o Marcos me pareceu uma dessas pessoas que conhecemos sentadas ao nosso lado em uma viagem de avião. Uma intimidade regrada, ensaiando para passos maiores, que só dependem da atitude dele assim que o avião pousar. Sua timidez casou com seu juridiquês e formou uma figura única: o escritor do interior, funcionário público, amarrado pelas limitações do mundo em que vive.

Peraí, mas esse não sou eu?

É, sou eu mesmo, com as devidas adaptações. Não foi difícil estabelecer a empatia. E, confesso, é para isso mesmo que eu estava lá.

Num de seus momentos mais descontraídos, Marcos Peres passou a detalhar seu estranhamento durante o curso de Direito: enquanto seus pares mergulhavam em Constituição Federal e Código Civil, ele se via acompanhado das palavras de Borges. Em momento semelhante, enquanto contava sobre o momento em que recebeu a notícia de que era vencedor do Prêmio SESC, detalhou a curiosidade de seus colegas de trabalho sobre sua, digamos, “vida secreta” de escritor.

Bem, poucos podem entender o desassossego de se saber escritor em um ambiente formal.

A existência de Marcos como escritor que desponta no cenário nacional, entretanto, é alento desses que nos (me) faz seguir confiante e esperançoso de reconhecimento, mas, principalmente, de alcançar a sensação de realização enquanto artista.

Nesse ponto, entra o pano de fundo do debate, a questão que ficou no ar, tangenciada, mas distante, é possível viver de arte no Brasil?

A vida e experiência de Marcos e André mostram que não. Muito além do talento e da possibilidade de marcarem “escritor” no check in do hotel, são um técnico judiciário (Marcos) e um publicitário de propaganda eleitoral gratuita (André).

Eu gostaria de ter perguntado a eles: “vale a pena?”. Não perguntei. Talvez por já saber a resposta.

Essa vida dupla, de qualquer maneira, é angustiante para qualquer homem e nos expõe a certos ridículos. Disse Marcos que no último ano de sua faculdade queria porque queria escrever uma monografia envolvendo Borges e o tempo. Seus professores juristas não engoliram a ideia. “Tempo? Você quer falar sobre a morosidade do processo?”. Não, ele não queria falar sobre isso. “Sobre prazos recursais?”. Menos ainda. “Borges, o escritor, e tempo, a ideia filosófica”, ele indicou. “Não, isso não é possível”, burocratizou o jurista-professor. Nosso sistema de ensino superior não quis se expandir, pelo contrário, fagocitou Peres e o conformou ao seu feitio.

Uma desinibida na fileira da frente arriscou: “E escreveu sobre o que, afinal?”.

Marcos abaixou a cabeça, mais uma vez tímido: “sobre processo eletrônico”.

Não deixo de pensar no meio acadêmico (e em todos os ambientes formais, com seus ritos tradicionais, como de costume) como uma certa morte do espírito e do corpo. Morte do espírito porque tirânico, morte do corpo porque engessado.

Por terrível coincidência, no mesmo dia estava a ser instalado no meu trabalho o famigerado Projudi, o processo eletrônico da Justiça do Paraná, que veio para enterrar os processos de papel que tanta alegria e alergia me deram. Veio para tornar meu trabalho mais eficiente, para tornar minha força de trabalho mais rentosa, para azeitar a máquina pública.

Uma vida dupla, eu insisto, difícil de lidar, como duas ideias tão contraditórias que afinal insuperáveis: Borges e o tempo de um lado e processo eletrônico do outro. Pensar e cumprir prazo. Escrever e se conformar. Voar e rastejar. Viver e morrer.

Vale a pena?

2 comentários:

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Vale a pena ou falta alternativa? Esta seria a minha pergunta, após parágrafos não tão interessantes de se ler quanto os seus.
Sobre viver de arte no Brasil, porém, nem precisamos mais nos perguntar: não, não é possível viver de arte no Brasil e em grande parte dos países - pelo menos, as possibilidade de se viver de arte, são número estatisticamente desprezível, figuram dentro de margens consideradas 'de erro'. E, se não é possível viver exclusivamente da arte, resta ao artista o difícil equilíbrio imposto pela sobrevivência. Resta ao artista esquecer que o ímpeto por 'comunicar', muitas vezes (talvez quase sempre?) é mãe da criação, ou não se cria mesmo nada; ou se enfraquece o ímpeto com perspectivas desalentadoras e desfragmenta a obra. A realização do artista deve ser a obra e só. O observador? Resuma-se a 1 comentário em um blog, nasça apenas gerações após a morte do artista, ou o retrato nunca seja apreciado por mais de meia dúzia, o poema nunca lido além dos círculos familiares: são apenas circunstâncias! A realização do artista é a obra-prima! São as musas e pedras...

Há tempo que não passava por aqui, nem ao meu blog vinha fazendo visitas para ver em que pé parei... mas devo retomar tudo em breve, espero. Ainda que demore, em casa boa sempre se volta, como diria o mineiro. Abraço!

Helena G.S.R disse...

Acredito que sempre é válido buscarmos caminhos alternativos que nos permitam investir em que, realmente, gostamos. Mas essa é apenas a opinião de mais uma curitibana mal-humorada! ;)

Adorei!
Beijos.