2.12.15

O inimigo

A corporação está convocada. A ordem veio do sargento, do tenente, do major, do coronel, ou até mais de cima, dizem, então é colocar a farda e assumir a tarefa, o dever para com o povo paranaense.
A missão é cercar um prédio público. O patrimônio público é importante, pensa o miliciano. Mas por que ele deve ser cercado? Não interessa, responde um superior hierárquico. A tarefa é clara: cercar o prédio. Fazer perguntas demais não soa bem, melhor obedecer. Com a tropa na rua, o clima é festivo, toda a corporação fazendo um grande cordão em torno de uma bonita construção. Quase desejou que estivessem todos de braços dados. Uma comunhão em defesa do bem público.
E quem são aqueles que nos afrontam? O inimigo, claro. Os vagabundos, subversivos, insubmissos, aquele povo encostado que só sabe sugar. O que eles querem? Eles querem atacar, ora! Depredar, saquear! Parem de fazer perguntas, apenas impeçam o avanço das tropas inimigas.
Os comunistas avançam. Gritam palavras de ordem. Não entende nada. Um deles se aproxima. Os olhos inchados, um pano na cara, um giz na mão. Justiça, salário, casa do povo, consegue distinguir entre a gritaria. Não entende nada. Alguém resolve lhe aplicar um corretivo. Faz sentido. É a missão. A ordem vem de algum lugar: avancem. Um inimigo do povo cai e se rende. Tire a máscara, é a ordem. Tire! Ele trêmulo, como que arrependido da brincadeira de lutar por qualquer coisa, tira o pano da cara e meio envergonhado diz: não me machuca, pai.
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Originalmente publicado no Correio 7 de Março, 2ª edição (Jul/2015).